Buscando mais precisão na agricultura

Em mais um dia de lida na fazenda, logo cedo o produtor, usando apenas o celular, dispara comandos para que o drone saia a campo para captar imagens e dados da propriedade. Da sede, com óculos de realidade virtual, ele monitora toda a área em tempo real, por meio de imagens nítidas transmitidas pela internet de ultra velocidade com sinal 5G.

Também de forma automática e em tempo real, as imagens são armazenadas em nuvem, onde programas interpretam os dados coletados  utilizando  inteligência artificial e os transformam em informação útil para o produtor tomar decisões sobre o que deve ser feito na lavoura naquele dia. É um processo rápido que não exige esforço corporal, diferente de ter de percorrer grandes áreas da fazenda para fazer o monitoramento, o que gera fadiga.

Cada vez menos longe de parecer ficção, a cena acima faz parte do experimento de Agricultura 5.0 iniciada no Brasil em dezembro de 2020, em uma fazenda de 1.100 hectares, em Rio Verde, sudoeste de Goiás, conforme essa reportagem da FAPEG. Esse experimento marca a nova fase da agricultura digital no Brasil, caracterizada pela automação de toda a cadeia produtiva, através de diversos conceitos já aplicados em outras áreas, como da inteligência artificial, robótica, biologia sintética, uso de impressão 3D, dentre outros.

Além de trazer exemplos de uso da internet 5G no Brasil, que ainda está em desenvolvimento, a realização do experimento demonstra a velocidade com que a agricultura digital avança no país, com recursos sofisticados que promovem maiores ganhos de produtividade, menos custo de produção e racionalização no uso dos recursos naturais, o que contribui para um agronegócio ainda mais sustentável. Até chegar a esse experimento, muita coisa já mudou na agricultura digital no país.

De onde viemos

O agronegócio sempre foi essencial para o Brasil, passando pela expansão dos estados por conta de café, gado e açúcar, até os dias atuais onde o Brasil é o principal exportador de diversas culturas sem o aumento significativo de área plantada.

Estamos vivendo a plena expansão da “Agricultura 4.0” nas pequenas e médias propriedades, momento que já ocorreu em grandes propriedades que preparam a sua transição para a “Agricultura 5.0”.

Para contextualizarmos essa conversa, usamos como referência esta apresentação da Silvia Maria Fonseca Silveira Massruhá, Chefe-Geral da Embrapa Informática Agropecuária, onde ela descreve as fases da agricultura da seguinte forma:

  • Agricultura 1.0: Mecanização e uso de tração animal
  • Agricultura 2.0: Mecanização através do motor à combustão
  • Agricultura 3.0: Sistemas guiados e agricultura de precisão
  • Agricultura 4.0: Fazendas conectadas a internet

A evolução da agricultura digital no Brasil

Essa nova realidade do agronegócio que a Agricultura 5.0 busca proporcionar ao Brasil é fruto de muito trabalho em ciência, inovação e tecnologia realizados ao longo dos anos por empresas públicas e privadas, as quais foram responsáveis pela introdução da agricultura digital no país durante a década de 1990. Foi quando começaram a ser adotadas nas fazendas as técnicas da “Agricultura de Precisão”, também conhecida como AP.

Baseado no conceito de que as variabilidades espacial e temporal têm grande influência no rendimento dos cultivos, a agricultura de precisão é uma técnica de manejo que se utiliza de tecnologias diversas para realizar o gerenciamento detalhado de todo o sistema de produção. Sua introdução no Brasil ficou marcada como sendo o início da Agricultura 3.0 [Arquivo PDF].

A aplicação da AP no campo foi possível através da introdução de tecnologias diversas em maquinários agrícolas (colheitadeiras, pulverizadores), como os satélites de navegação global,  GNSS (sigla para Global Navigation Satellite System), sendo o GPS (Global Position System) o mais comum, além da proliferação de programas de computador empregados aos Sistemas de Informações Geográficas (GIS), sensores e dispositivos para realizar o processamento de dados georreferenciados.

A partir dessas tecnologias, foi possível obter dados sobre a produtividade em cada parte da área de produção, bem como fazer aplicações de corretivos, fertilizantes e defensivos agrícolas a taxas variáveis, usando como base o conceito de Zonas de Manejo. Os dados gerados sobre a produtividade e nutrientes do solo permitiram a realização de mapas de variabilidade espacial e temporal.

Mapas de variabilidade espacial mostram uma determinada área de produção e a sua condição mais recente do solo, seja relativa à fertilidade ou à colheita, um mapa de colheita seria um exemplo de mapa de variabilidade espacial. Já os mapas de variabilidade temporal, geralmente são feitos ano a ano e servem para avaliar o desenvolvimento da lavoura. Por indicar o uso mais assertivo de insumos (fertilizantes, adubos e defensivos), eles geram economia ao produtor rural e ajudam a preservar o meio ambiente.

Dados baixados manualmente

No início da Agricultura de Precisão, sem a conectividade que temos hoje, os dados gerados sobre a produção eram armazenados no maquinário e transferido para um computador através de um dispositivos externo, como um pen drive – o uso do smartphone só veio a se tornar mais popular no campo muito recentemente, conforme pesquisa de 2017 do IBGE que apontou que quase 1,5 milhão de produtores rurais usam internet, sendo 659 mil através de banda larga e 909 mil via internet móvel; em 2006, eram apenas 75 mil.

E, além da transferência dos dados, o produtor ainda tinha que interpretá-los e transformá-los em informação que o auxiliasse na tomada de decisão, trabalho feito com a orientação de profissional da agronomia. Não adianta apenas ter os dados se você não souber interpretá-los.

Um dos maiores ganhos que o agricultor teve nesse início da agricultura de precisão foi com o uso do piloto automático, que permitiu a realização de operações em linhas retas e sem a interferência de um operador na máquina, já que ela era guiada pelo GPS, aumentando a precisão também na hora da colheita.

Dentre outros benefícios que o uso do piloto automático trouxe para o produtor, estão a redução da fadiga, já que não tem que segurar o volante nem usar pedais; a flexibilidade de tempo, tendo em vista que a direção por meio de GPS pode funcionar à noite; maior competitividade, pois o piloto automático aumenta a eficiência e a rentabilidade da produção; e mais tempo para monitorar a colheita: o produtor, sem se preocupar com a operação do trator, pode observar melhor a lavoura, bem como o monitor do trator para checar se há algo errado com o maquinário.

O desenvolvimento da Agricultura 3.0 no Brasil marca também a entrada da biotecnologia no agronegócio brasileiro em algumas culturas, de muita importância para o aumento da produtividade que fez o país deixar de ser importador de alimentos, como ocorria há 50 anos, para ser hoje um dos principais exportadores do mundo em diferentes culturas.

A biotecnologia proporcionou grandes transformações na agricultura. Plantas com características agronômicas e nutricionais mais interessantes do ponto de vista da produtividade, resistência a pragas e adaptação a ambientes diversos foram desenvolvidas a partir da identificação de genes selecionados e usados como marcadores moleculares em processos de seleção assistida.

Como parte da biotecnologia surge também a transgenia, processo no qual genes são transportados entre organismos. A transgenia fez com que fossem reduzidos os impactos ambientais pelo agronegócio, tendo em vista que as plantas transgênicas diminuem a necessidade de aplicação de defensivos agrícolas, um processo que envolve o uso de tratores (que emitem CO2 na atmosfera) e de água para fazer a calda, por exemplo.

Neste post, conhecemos um pouco do histórico da tecnologia na agricultura brasileira, o que nos auxilia no entendimento de como chegamos até aqui. Neste outro post do blog, explicamos em detalhes o que é a agricultura 4.0, a chegada dela no Brasil e como ela molda o cenário atual da agricultura brasileira, que saiu de pequenos produtores na década de XX para ser, hoje, líder na exportação de diversas culturas.

Referências

Alguns materiais que usamos como referência e conteúdos que podem te interessar para aprofundar alguns dos temas:

Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil. O Futuro é Agro – Plano de Trabalho 2018 a 2030. 

Embrapa Transgênicos. 

Helaine Carrer; André Luiz Barbosa; Daniel Alves Ramiro. Biotecnologia na agricultura. Estudos avançados. vol. 24 no.70, São Paulo.  2010. 

Josiana Gonçalves Ribeiro, Douglas Yusuf Marinho, Regional Catalão, José Waldo Martínez Espinosa. Agricultura 4.0: desafios à produção de alimentos e inovações tecnológicas. 

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Buscando mais precisão na agricultura

Renata Bobrowski Rodrigues, 11/03/2021