Sistemas de irrigação devem priorizar eficiência e adequação às culturas

Em um mundo que cobra cada vez mais o uso racional dos recursos hídricos por parte do agronegócio, aperfeiçoar as técnicas de manejo da irrigação é essencial. Para isso, é importante conhecer como funciona a irrigação e seus vários tipos, de modo a utilizar de forma eficiente a que mais se adequa à cultura e à região de produção.

Ao longo da história, a irrigação, cujos primórdios têm origem nas civilizações do antigo Egito e da Mesopotâmia, vem sendo aperfeiçoada com vistas a garantir a produção de alimentos pela agricultura. O controle do fluxo da água foi um dos grandes fatores que contribuíram para a evolução do ser humano que pôde criar assentamentos mais distantes de lagos e rios.

No Brasil, a irrigação é praticada desde 1900, com a produção de arroz no Rio Grande do Sul, mas só veio a se difundir com mais força nas décadas de 70 e 80, de acordo com o relatório de 2020 da Agência Nacional de Águas (ANA) [Arquivo PDF], autarquia do Governo Federal. Ainda segundo o relatório, o país está entre as 10 nações com maior área irrigada do mundo, contando com cerca de 6,95 milhões de hectares irrigados.

A irrigação pode ser definida como um conjunto de equipamentos e técnicas para fornecer às plantas a quantidade de água necessária para a sobrevivência e boa produtividade.

A irrigação complementa a água da chuva e a que está no solo. Sobretudo em áreas de escassez de água, ela se faz necessária tanto para atender a demanda da agricultura quanto à criação de animais, com destaque para aves e suínos.

Seu manejo deve priorizar a objetividade, com o fornecimento de quantidades de água necessárias para o bom desenvolvimento da planta – nem mais e nem menos, de acordo com cada estádio vegetativo e as condições climáticas locais. 

Distribuição da precipitação média mensal no Brasil (período 1961-2007)

Como funciona a irrigação 

Para ser irrigada, uma área necessita inicialmente de uma fonte de água, que pode ser de um rio, canal, tanque ou poço artesiano. Definida a fonte, busca-se qual sistema e método de irrigação será utilizado, conforme o objetivo a ser atingido.

A definição do método e do sistema é de grande importância, já que por meio deles será possível estimar perdas entre a quantidade de água captada e o que será aproveitado pela planta.

O método deve ser escolhido com base nas condições do meio físico, água disponível, a cultura, alcance da água e capacitação das pessoas que ficarão responsáveis pela irrigação, tendo em vista que terão que tomar decisões importantes.

Estudos científicos sobre o tema, como esse aqui, apontam para uma variabilidade sobre quanto e quando irrigar. No caso de intervalo de irrigação, o volume de água deve ser proporcional às condições climáticas – precipitação e evapotranspiração.

Usar sensores do solo ou acúmulo de evapotranspiração até valores fixados por fase da cultura são as formas mais recomendadas em pesquisas sobre o tema, as quais ponderam que a lâmina de água varia pouco entre as irrigações, diferente do intervalo, que varia em decorrência do clima.

A definição sobre a quantidade de água a ser utilizada deve ocorrer na fase do projeto e dimensionamento do equipamento. É preciso também buscar dados sobre a retenção de água do tipo de solo da área de produção, profundidade efetiva das raízes da cultura, eficiência do sistema e demanda de chuvas na região.

Características dos métodos e sistemas de irrigação 

A agricultura brasileira utiliza vários métodos de irrigação, dentre eles os principais são o superficial, o subsuperficial, o subterrâneo, por aspersão e o localizado. A escolha deles deve atender a critérios técnicos. Veja com mais detalhes cada um deles.

Irrigação Superficial

Neste método, largamente utilizado na cultura do arroz, a água fica disposta na superfície do solo e tem o seu nível controlado para ser aproveitado pelas plantas. Assim funcionam sistemas por sulcos, faixas, corrugação e inundação, por exemplo.

No sistema por sulcos, a distribuição da água ocorre através de canais paralelos (sulcos) entre as linhas do plantio. A quantidade de água fornecida deve ser a necessária para deixar úmida a zona de perfil do solo onde estão as raízes da planta.

O método superficial por sulcos, no Brasil, é utilizado em hortaliças tutoradas (quando precisam de alguma estrutura para direcionar o seu crescimento) ou que requerem pulverização frequente, a exemplo da ervilha-torta, o pimentão e o tomate. Produtores de melancia, melão, cenoura e cebola também têm optado por este método.

Esse sistema molha de 30 a 80% do solo e diminui as perdas por evaporação, mas pode favorecer a salinização e a erosão do solo. Como não molha a parte aérea, não interfere na aplicação de defensivos agrícolas.

Em comparação com outros métodos, ele utiliza mais mão de obra por unidade de área, cujo terreno deve ser em leve declive para que a água escorra, e o solo precisa ser homogêneo. Não deve ser aplicado em terrenos arenosos, devido às altas taxas de infiltração.

Irrigação Subsuperficial

Com aplicação da água sob a superfície do solo, por meio da criação e controle do lençol freático, o método subsuperficial faz com que a umidade alcance o sistema radicular da planta em decorrência da ascensão capilar da água.

O lençol freático, inclusive, pode ser variável, o que permite que seja elevado e rebaixado, conforme as necessidades do plantio, por meio do fechamento e abertura das comportas.

Esse sistema possui baixo custo de investimento inicial, de energia e mão-de-obra. Necessita que o solo seja plano ou sistematizado, com camada permeável sobrepondo camada impermeável em 1,5 m de profundidade.

O sistema é utilizado, por exemplo, em plantações de melancia na Bacia do Rio Araguaia e nos estados de Goiás e Tocantins, mas a literatura científica recomenda o uso em diversas hortaliças, a exemplo de alho, feijão-de-vagem e milho-doce.

Irrigação Subterrânea

O método subterrâneo caracteriza-se pela aplicação da água abaixo do nível da superfície do solo, onde pode ser aproveitado pelas raízes da cultura. Os sistemas mais adequados para esse método são os de gotejamento subterrâneo e a subirrigação.

Ele é utilizado, por exemplo, em áreas de cana de açúcar e de pastagem, a fim de obter maior rendimento do pasto. Nesse sistema, os tubos gotejadores ficam abaixo do solo, o que favorece a aplicação de água diretamente na raiz da planta. Assim, ocorre melhor absorção da água e ao mesmo tempo não atrapalha a utilização de maquinários no pasto.

Aspersão

Talvez o mais utilizado no Brasil, o método por aspersão é o que utiliza água sob pressão acima do solo. Os aspersores simulam uma chuva artificial.

Pequenos e grandes agricultores utilizam o método de aspersão por meio de sistemas convencionais, com linhas laterais ou em malhas, mangueiras perfuradas, carretel enrolador e pivô central, presente em grandes áreas de produção.

Esse método pode ser utilizado em qualquer tipo de solo e topografia, e permite a utilização de fertilizantes e defensivos por meio da água de irrigação. No entanto, a depender do tamanho do sistema, pode demandar alta quantidade de energia, bem como sofrer interferência do vento e da evaporação, sobretudo em regiões quentes.

Sistemas de irrigação por aspersão mecanizados, como o autopropelido, o de deslocamento linear e o pivô central, e ainda o convencional fixo, apresentam custos mais elevados que os sistemas portáveis e semi portáteis, mas requerem uso reduzido de mão-de-obra.

No Brasil, os sistemas de irrigação por aspersão são muito utilizados em pequenas áreas de produção de hortaliças. Já nas grandes áreas, predomina o uso de pivô central, como no tomate por exemplo. Áreas de produção de milho-doce, cenoura, batata e melancia também fazem uso corrente desse método.

Em áreas de produção de uva, o sistema por aspersão recomendado é no modelo subcopa – com operação abaixo do dorsel das plantas, já que o sobrecopa molha as folhas e facilita a ocorrência de doenças e aumenta as perdas de água por evaporação e pelo vento.

Devem ser usados aspersores com baixa/média intensidade de precipitação. Esse sistema exige moto-bombas de maior potência e demandam maior consumo de energia em relação a outros sistemas, como o de gotejamento.

Irrigação por aspersão em área de pastagem visualizada através do Granular Insights.

Irrigação Localizada

Considerado por muitos pesquisadores como o que mais economiza água, o método localizado realiza a aplicação de água em uma área definida, como num corredor de plantação ou sulco, o que evita desperdícios.

O volume de água varia de acordo com a evapotranspiração (evaporação do solo + transpiração da planta) de cada cultura. Nele, são usados os sistemas de gotejamento e microaspersão. Nestes, ocorre a emissão de gotículas de água em uma precipitação mais suave e uniforme.

O sistema por microaspersão utiliza equipamentos conhecidos como “bailarinas” que tem asas giratórias, sendo que podem ser instalados de cabeça para cima ou para baixo. São indicados para estufas e viveiros fechados.

O gotejamento exige a irrigação relativamente frequente da área por meio de pequenas vazões, de forma a deixar úmida somente a área utilizada pelas raízes das plantas, o que reduz a evaporação e a infestação de pragas e ervas daninhas.

O gotejamento é, por exemplo, largamente utilizado em áreas de produção de manga, na qual os gotejos ficam dispostos ao redor da planta, de modo a cobrir a área recomendável para a cultura.

A configuração sobre os pontos de emissão de água ao redor da planta depende da necessidade de água em cada fase da cultura, do clima e das características do solo.

Geralmente, o recomendável é a utilização da irrigação por gotejamento lateral em cada fileira da planta, sobretudo quando a cultura requer um espaçamento mais amplo, como é o caso da manga.

Também se utilizam linhas duplas, mas em locais com espaçamento reduzido entre as plantas, assim é possível formar uma área úmida mais ampla entre as plantas.

Outras alternativas, em espaçamento amplo, são o zig-zag, o anel auxiliar e as múltiplas saídas. Todas adaptáveis, conforme as necessidades.

Ainda na irrigação por gotejamento da manga, é importante destacar que a relação entre a área molhada varia entre 30% e 100%, a depender da idade da planta.

O valor da porcentagem tende a ser maior em áreas com espaçamento reduzido. Em áreas com espaçamento amplo, a porcentagem varia entre 30% e 60%.

Esse sistema por gotejamento é muito utilizado também em áreas de produção de uva, devido às baixas vazões com altas frequências diárias, o que favorece ao aumento da umidade do solo de forma objetiva. Também favorece o controle mais eficaz da qualidade da produção, tendo em vista que a uva é uma cultura cujos níveis de açúcar são influenciados pela quantidade de água.

Por esta razão, boa parte do cultivo de uva no país é realizada em áreas de clima quente, como no Vale do São Francisco (entre Pernambuco e Bahia), que permite o cultivo com irrigação e controle das quantidades de água para a planta. Ao contrário de regiões mais chuvosas, onde há maior risco de perdas da cultura. 

O melhor sistema é o que atende ao produtor 

Por mais adequado que possa ser para a cultura e região onde será desenvolvido, o sistema de irrigação nunca será capaz de atender a todas as demandas e interesses envolvidos.

Vantagens e desvantagens devem ser levadas em conta em cada situação, de maneira que a escolha permita a máxima redução de impactos negativos e potencialize os positivos: uso racional do recurso hídrico, alta produtividade e qualidade.

A planta depende de quantidade de água em níveis adequados em todo o seu desenvolvimento vegetativo e reprodutivo, e por isso essas quantias devem ser levadas em conta de forma previamente estabelecida para que o sistema de irrigação seja constituído conforme o objetivo a ser alcançado.   

Portanto, depois de definido o sistema de irrigação adequado à lavoura em questão, é fundamental acompanhar a efetividade desse sistema. Para isso, o monitoramento com a ajuda do Granular Insights torna-se fundamental. Através do Índice de Vegetação aplicado às imagens de satélite é possível encontrar falhas no sistema de irrigação, como, por exemplo, aspersores entupidos, sistemas desregulados, mangueiras desalinhadas, entre outros. Também é possível monitorar áreas que tenham pivô central, para acompanhar o desenvolvimento da cultura.

Para expandir as suas leituras:

Agência Nacional de Águas-ANA. Atlas da irrigação. Disponível em: https://arquivos.ana.gov.br/imprensa/publicacoes/AtlasIrrigacao-UsodaAguanaAgriculturaIrrigada.pdf 

Embrapa. Seleção de sistemas de irrigação para hortaliças. Disponível em: https://www.embrapa.gov.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/916702/selecao-de-sistemas-de-irrigacao-para-hortalicas 

Embrapa. Sistema de Produção de Uvas Rústicas para Processamento em Regiões Tropicais do Brasil. Disponível em: https://sistemasdeproducao.cnptia.embrapa.br/FontesHTML/Uva/UvasRusticasParaProcessamento/irrigacao.htm 

Euzebio Medrado da Silva. Alberto Carlos de Queiroz Pinto. Juscelino Antônio de Azevedo. Manejo da Irrigação e fertirrigação na cultura da mangueira. Embrapa, disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/556741/manejo-da-irrigacao-e-fertirrigacao-na-cultura-da-mangueira 

João Hugo Baracuy da Cunha Campoa. Eficiência no uso da água na mangueira sob diferentes tratamentos de irrigação. Disponível em: http://dspace.sti.ufcg.edu.br:8080/jspui/handle/riufcg/4843

Regina Célia de M.Pires. Flávio B.Arruda, Emílio Sakai, Rinaldo de O.Calheiros, Orivaldo Brunini. Agricultura Irrigada. Revista Tecnologia & Inovação Agropecuária, junho de 2008. 
Universidade Federal de Goiás (UFG). Irrigação por sulcos. Disponível em: https://www.docsity.com/pt/irrigacao-por-sulcos-2/4786673/

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